terça-feira, 18 de abril de 2017

Cármico hedônico




Vem de carmas os mistérios de trilhos cruzados,
os afins plutônicos e emaranhados,
as fontes, as perversões,
a sede do proibido e a tara - larga ponte
(convergência que leva à consumação
e à saciedade dos prazeres abissos...)

Também vem de carmas amores platônicos
com os seus pudores que não criam fontes,
a vontade própria que padecem aos montes,
sem afins se divergem, a ponte desarma
em riste e sem armas, em suma solidão,
na infelicidade

usam a castidade como perversão.

Bom Jesus



Centenários relicários,
repousam agora calados
mas guardam um passado vivo
mistérios emparedados
dos noturnos burburinhos.

Ainda, no ar, o ressoar
de gemidos estrépitos,
de perfumes e de sexo.

Em muitos ainda há lembranças
da luz que tingia em sangue
o azul enfumaçado dos cigarros baforados,
festas de homens e rapazelhos,
de espírito, embriagados...

Açougue dos prazeres,
clandestinos carnavais...
Em seus sobrados ainda há brados,
nos cochichos de pardais
ainda há contos embrulhados,
histórias de paparicos
nos venéreos carrosséis.

Antigo Recife de mortos corais,
Rua do Bom Jesus,
cemitério de bordéis,
de inhacas impregnadas,
vestígios de devaneios,
de orgias e devassidões.

Almas de putas e de gigolôs,
também donas de pensão
rondam os soturnos trilhos
perdidos, caçam apetrechos
que os tragam reencarnação.

Bagatelas





Das decepções
duvidosos sentimentos
que se expressam em palavras apenas;
que quando postos à prova
suas chamas pequenas e rasas,
sem sustância, perdem a trela;

Mostras de total desleixo,
das omissões de afeição
(da ingratidão por tabela),
causas de trincas no espelho
para os disformes reflexos
apontarem pra a razão.

E a alma acuada, em fastio
sem órbita e sem fulgência,
cria resistências
e se nega à entrega;

e as desilusões,
tal qual uma adaga cega,
rasga o coração
instala o vazio;
e os quereres em estio
dissolvem qualquer paixão.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Ao vento assobio




Pra cada olho há um olho,
pra cada olhar um juízo,
numa só sentença, o impreciso
milhões de interpretações...

Além de mim, mau poeta,
só quem sabe decifrar
o meu lato entremeio,
é quem, em mim, morre em segredo;
e em meio aos meus versos tortos,
vê e lê em suas entrelinhas,
metáforas de sentimentos...

e é a ti e é por ti
que, sem nenhum sofrimento,
os meus infernos assobio...

Às faces que não se velam
mas que se alteram em altares;
ao fogo que é forjado,
aos truques e às farsas,
às falsas confissões,
pecados não incógnitos
e ao que é vão, descartável,
sem mantos, eu assobio...

Enquanto em esconderijos
se esboça um sorriso
e força-se o siso, no cio
que de dissimulado,
a si mata e a outro morre...
a esse  rio que não corre
e nem às pedras dão o limo,
à vida em desperdício,
em meu canto assobio...

Assobio,
aos vícios em que me desligo
aos toques que não alcanço,
ao que não tem equilíbrio,
na espera em que me canso,
nos sonhos que não encruzilho ...

E ao que da vida filtro
ou que destilo em preguiça,
ao que se enguiça e não vivo,
ao tempo que me dá as costas
em descarte dou-lhe asas
e silencio  em respostas
ao que não me é reciproco...

o meu crer não me faz cego
e aos fardos que em mim carrego,
ao teu deus-ego assobio.

À luz das inquietações







Beira a somatização
que vai resistindo às hortas
n'angústia que te atropela,
nas falhas de humanidade,
discrepâncias declaradas...

Nas verdades descaradas
a mascarada humildade,
entre o pensar e o calar
ardis dos abissos Eus...

Por ora o contíguo chora,
no veio borbulhas em lavas...
vãs irreais comoções
com o elo que se perdeu...

Vai gélido na contramão
o espargir d'outros sonhos
que cegos e com delongas
vão-se amargos, arredios.

Vem o gritar dos porões,
e o desaguar em porfias
e o vomitar apressa a cura
à luz das inquietações.


Solitário voo


Buscando a ti
por entre os carpos,
voo nesse céu vasqueiro
sem armadura ou anteparo...

e afora insólita redoma,
a lhes invejar,
curvo-me aos pássaros em seus rituais,
sobre o azul oceânico
em livre acasalar...

Voo
num vai e vem, absorto,
olhos cerrados,
num arfante delirar...

de súbito,
despenco em mar fechado
sem onde mais navegar...

o espaço é delimitado...
o mundo seria outro
não fosse ampla a distância...

em riste e sem consonância
meu corpo procura o teu,
mas minh'alma não te alcança...

sozinho,
infatigável te busco
em meu louco imaginário...

por instantes,
com a cabeça que não pensa,
insanamente me farto
sem freios em meu instinto...

e morro
nesse desejo insaciável;
impressas às mãos calejadas,
cansadas,

saudades que de ti sinto...

Seco



Rebusco entre gavetas
as armas com as quais feri;
só encontro em cada canto
melindres duma alma fraca...

nenhum rancor entre os dentes
nem no ego, o fel do anti-humano
te encontro em desencantos,
em erros, convicções...

em comoções embotadas
sem a compaixão de ver o fim
me perco entre rosas e espinhos
e em movediços jardins...

só, trilho por vãos caminhos
repleto ou vazio de mim...

Sê tu anarco



Nem aos lobos nem às hienas
darás tua procuração
pra que fustiguem os teus dias
conforme o que lhes convêm...

Jamais lhes dirás o amém,
com a lucidez, com o juízo;
por certo estarás cativo
sem vez, sem voz, sem razão
nesse mundo que se curva
diante de um bicho-deus...

Terás os desejos teus
libertos com o teu retiro
e não te farás passivo
às imposições das leis.

"É contraditório clamar por liberdade escolhendo quem lhe governe."

Interpretação



Desvincule de mim
palavras ditas em más escritas...
e todas ideias ruins
que estejam em contradição...

meu castiço coração
não fala por outras línguas,
tampouco os meus sentimentos
cabem em qualquer tradução...

embora confusas sejam
distintas interpretações
é a minha una paixão
quem determina a sentença...

Essa é minha acepção
fundada em minha benquerença:
"O que sinto por você
torna o meu coração
liberto de solidão ..."

Dos óxidos e imbróglios das impassíveis paixões




Arde em mim sempre esse fogo louco,
pois todo tempo que me oferte é sempre pouco,
porque minha alma de amar é sempre corpo,
sou de entregas, sem muros, culpa ou medo
de rédeas livres e de prazer sedento.

Nunca aprendi a inibir vontades;
não sou de por minhas emoções em freios
nem por controle em meus sentimentos...

Em tuas razões, o ignoto,
em meu peito um rio perene
que a esmo procura um mar,
mas se tal mar é semoto
o rio deságua em si mesmo.

Distâncias são adagas de dois gumes:
ou engrenam querer, saudades
ou desconstroem argumentos,
desvirtuam realidades
com as pedras nos pensamentos.

De sol a sol fome e sede,
penúria, desolamento;
são luas de sofrimento
sem atalhos ao destino-nada.

Não chorarei aos naufrágios
das barcas, ao caos, ancoradas,
de insepultos retirantes
nem ao medo, seu apanágio.

Rumarei para outro estágio
em minha escalada incansável...
O alvorecer é um presságio
que outrem fará em mim morada.

Bom ânimo



Sigo e persigo o bom ânimo
para poder suportar,
ocluso, as dores do mundo...

das fúrias às aflições,
de abismos às desolações
de influxos desumanos...

ecos de ardis, de implosões,
provocações pro devir
e o caminhar pro remir
me levam às reflexões...

fustigado com o premir
de surreais depreensões;
fatigado de opressões,
mas no ânimo de prosseguir...

Teus versos




Hoje, dia de chão
em que quase morro,
me livro...

Abro o teu livro,
folheio,
leio os teus versos, releio
e neles me leio...

Me socorro
e ao chão revido,
me levanto,
me movo
e ao céu alço voo;

revivo,
vivo...
vivo, me resolvo.

Alma de vidro




Na lassidão da noite que se arrasta,
em suas horas cáusticas,
elásticas,
que se ancoram às negras nuvens,
grávidas de chuvas,
me trazem gatilhos à mente,
descargas de lembranças turvas,
ácidas,
visgos de tempos antigos,
de lumes que não tive...

Frágil e obscuro,
me tomo em redoma...
o tempo em mormaço veio pra tentar
trincar a minha alma de vidro...

Perdi-me...
daquilo que não foi feito,
tudo se perdeu...

Paisagem de triste plástica...
Pr'onde os ventos levaram o azul?...
E a lua em sua solidão?

No céu,
vestidas em seu véu escuro,
estrelas se escondem
mentindo que é o fim...

Risca no breu um corisco
só pro bradar do trovão
e as nuvens, em seu ventre aquoso,
preguiçosas choram...
e tudo em mim silencia.

Não sei o que mais virá ...
tudo anda igual como antes,
nesse marasmo não há pontes
pra que se alcance a luz...

Nada de novo há no front
nem mesmo um fio de horizonte
e no ontem, escuridão...

De poucos, todo



Sejamos de intensos átimos,
de fardos de pecados, ínfimos;
multifacetados, lúcidos,
cheios de planos e ladeiras,
mistos de dignos e pífios,
de insensatos, intemeratos, loucos.

Sejamos de óbvios e de controversos,
de ebriedades e de sequidões;
de patentes e de improváveis;
de atos sensatos, de feitios impensados...

Sejamos de ações ou de ócios,
de óxidos, dulçores e ácidos,
de renúncias, de entregas
e de voluntários vícios...

Sejamos corteses aos máximos,
íntimos dos mínimos,
dos últimos, os próximos...

Sejamos de muitos, pouco,
mas, se de poucos, muito,
quiçá, se de poucos, pouco
mas, se desses poucos, todo.

Saudades



Embora esteja deserto,
em silêncio mergulhado,
há asas em meu âmago
por onde a poesia ecoa...

em meu peito entreaberto,
sentimento qu'inda soa...
liberto, o meu pensamento voa
chamando teu nome ao vento...

por todo tempo te busca
e te encontra
em meu coração referto
ao tempo que está sedento...

nas saudades que me enfusca
disfarço e o falso invento
sorrio sem brio, sem tento
embora minh'alma moa...

tua ausência me atordoa
mas não me deixa vazio;
sou como as águas de um rio
que para o teu mar escoa...

Só tem-se o que se merece



Toda estação tem final;
qualquer tempo, vencimento;
porque moinhos mudam ventos,
caem céus e chãos estremecem...

às dores os passos emudecem;
se estancam rios, sentimentos;
as flores perdem suas cores;
também jardins desfalecem...

o início tem os seus portentos,
ao fim, talvez, dissabores,
o que torna ao pó se esquece
e enfim, nada permanece...

talvez seja aqui o inferno;
não existem eternos amores;
não dar-se o que não se tem
só tem-se o que se merece...

Dono do tempo




Vi a luz acesa
quando olhaste pra mim
e em teu mundo adentrei...

quis sentir teu mel, te desembrulhar
sonhei te provar qual doce alfenim...
devaneei o céu sem me importar
com fins deletérios d'infernos e afins...

quis remar em teu mar de tantos mistérios,
quis te desbravar, ter a vida em flor...
tive o teu sorriso a rimar com o meu,
depois o meu corpo confesso a ti;

senti frio e ardor, extremo, apogeu
vi jorrar em teus olhos floridos jardins...
quis cada segundo ser do coração
quis toda emoção (e pude sentir)...

me entreguei por todo, chorei e sorri
fiz viver manhãs noutros pensamentos,
vivi o portento, fui todo paixão,
fui dono do tempo que me dei pra ti...

Tempo único



Deixai o mundo girar
e observai, cá de fora,
as patetices do humano...

não adianta esperar,
deixar pra depois fazer,
pois vedes que o tempo finda...

Enquanto se estende a vida
ou a morte em vida não vem
as batalhas são contínuas...

Não existe nenhuma mágica
para que se zere o curso
e se recomece a vida;

o tempo, espiral infinita
em cada uma tênue espira
se nasce o presente e expira...

De que adianta traçar tantos planos,
insanos & surreais
se em quase nada mudamos?

O tempo é de acordar,
de construir, de viver,
com sanidade ou loucura,

também de absorver
para depois processar
o que os dias nos trouxer...

A hora é de mudar,
de plantar boas sementes,
pra, se possível, colher...

Não adianta adiar,
deixar pra depois, tolher,
pois vedes que tempo é vida...

Silêncios & Confissões




Não ergo fátuos palácios,
mas sim vivência de sonhos
daquilo que acredito
que é bênção para os meus dias...

não valorizo dinheiro
além do que necessito
e aquilo que traz o intranquilo
não serve-me como querer...

deixe-me viver
do jeito que sei, que sou...
deixe-me fugir
ao encontro das minhas verdades.

deixe-me seguir
e descruzar o teu caminho...
e até, sozinho, me pungir
em angustos sorrisos tristes...

não vou, cego, me embair
nem usar da mediocridade...
deixe-me, ao silêncio, crescer
e até, quiçá, descobrir
se existe a felicidade...

Abstrato



Em certos dias,
há um marasmo qualquer
que faz de tudo clichê...

A vida, o seco, segue
num quê que, enfim, perseguem
vazões viscerais do ser...

E como existe a razão
se o tal destino o fim?

Entregue a ao dispor da sorte
os nortes são sempre incertos;
os tinos inconsequentes;
abismos , decerto, perto,
e a morte sempre iminente...

Dói-me você


Dói-me você,

parte de mim mutilada
mas qu'inda pulsa em mim...

Hoje somos a distância
do que ontem não evitamos...

no início de trajetória
ainda era primavera,
um embrião de história
mas vida que já jazia...

o vento apagou os sonhos
e sem nem deixar resquício;
o tempo tão traiçoeiro
fez expirar o meu sorriso...

em meu cerne tão sofrido,
que outrora albergava o amor,
hoje [...]
sobeja somente a dor
e a solidão, qual castigo...

Presente e passado



Como num sonho findo,
acordo ao meu lado;
recorrente infância,
sou dois, lado a lado
adulto e criança,
presente e passado
neste vêm saudades,
naquele o pecado...

o Eu do passado
sabe aonde chegar
e o Eu do presente
é o que, triste, sente
que os ventos não voltam,
que o tempo passou
e pressente a dor
por tudo mudar...

"Liberdade"


Nenhum governado é livre,
todo governo é tirano,
assim todo engano é franco,
todo branco, encardido...

Na prática,
a cada centavo imposto
todo salário é falso;
todo o direito é falho...
e por debaixo dos panos
todo trabalho é mal-pago...

todo ideal é banido,
todo sistema é bandido,
é cruel, assaz desumano...

Cada unitário é domado,
e o todo é um semimorto...

Afora o capitalismo
não existe o comunismo,
nem existe o socialismo
e a dita democracia é só uma ilusão...

Egoísmo, segregação,
poderes e corrupção...
degradação, consumismo,
vis marcas da humanidade...

As aspas na liberdade
não são só um simples adorno...
O mundo vive (e não sofre)
da Síndrome de Estocolmo.

Espectros


Às faces da noites
revela-se no escuro,
o medo...

são claros
os pensamentos macabros,
no hemisfério soturno da mente;

as criações de fantasmas
são traumas,
quiçá psiconeurose...

No escuro mora o inseguro,
o real em metamorfose
na mente cega,
doente
e os olhos semicerrados...

delírios,
distúrbios do sono,
sonhos perturbados
por sentimentos imaturos...

Chagas de uma alma fraca




Vem de fraquezas,
de inseguranças,
medos;

enredos mal desenhados,
queixumes
e surtos de possessão,
marés de inveja e borrascas...

usanças, inchumes,
marcas de um senso egoístico,
de pragas e de seus chorumes...

insânias
vêm, fatalmente, à tona,
pesa ao contrassenso
a falsa e sadista
cega rendição;

malsã, se chega a paixão
é no realístico
faca de dois gumes...

cargas de pesares
que traz ao peito o azedume...
ciúmes são chagas de uma alma fraca.

Digno à Terra




É digno à terra
aquele que a tem como mãe,
aquele que, dela, tira o seu sustento
e que mais tarde, quando já cansado,
deita-se consciente em seu colo...

e, sem sombras de soberbas,
entrega o seu corpo lasso,
e nela se encerra...

para que, assim como ela,
se faça parte do todo
para que seja uno,
para que seja solo...

Tanto quanto





Tanto morre em mim todo dia
que escombros já não me espantam;
Quanto cinzento que assola
que sombras já não me assombram...

voa distante o espavento,
nem mesmo me alcança a dor...
e mesmo que haja o ardor
necessito dos decessos
pra que me safe do horror...

Silêncio, furna e mistérios
é tudo o que me decanta,
me estanca, traz refrigério...
é assim que me faz viver...

É no breve entardecer
que as pedras às vezes se encontram,
debalde não se comungam
porque veem no tempo o fim;

enfim,
dentre nós que me teceram,
quantos ventos me torceram,
e , em mim, tantos já morreram
e em tantos também morri...

O andarilho


Lá vai o andarilho

de bolsos vazios,
na face estampado
o olhar arredio...

em suas privações
fome, sede e frio
e em sua bagagem sua coleção:
desdéns, desmazelos
sem desvelo ou brio...

em cada passada, uma provação;
não há desesperos com as verdades nuas
há sim desapegos, realidade crua;
companhias suas, o sol, a solidão;
as suas candeias, as estrelas, a lua
e o seu quinhão, os seus pés e a rua.