segunda-feira, 24 de abril de 2017

Cruz, dores do mundo



Quando, no mundo, ainda era vida
quis falar do amor, mas me faltaram as palavras.
Existia, em mim, a incompreensão...
E, mesmo que houvesse fala, havia incapacidade
de expressar o que sentia...

Em todo o meu ser pulsavam emoções,
um misto de amor, de vazio e resignação.
Contudo, estava à beira dum abismo
exposto às perversas sanções
por não queixar-me de nada...

Deuses ensandecidos puseram-me à prova,
lançaram sua fúria sobre mim,
abalaram a minha alma
e transformaram a minha vida...

Em minhas cercanias tudo ensurdeceu
(Ninguém pôde ouvir meu grito abafadiço;
Foi como um vulcão às avessas,
jorrando de fora pra dentro...)

E esses magmas me abriram fissuras,
me fundaram furnas.
(Castigo que me martirizou
e que me tornou numa frágil rocha...)

E hoje, ainda que falem do amor,
já não sinto o inquietante vazio;
Pelo amor, sinto o peso em meus ombros
por todas as dores do mundo.









sexta-feira, 21 de abril de 2017

Refluxos



O tempo trouxe até nós
o que eu predisse em delírios...
foi impossível volver
o que já estava escrito...

Apostamos pra entender
e forçamos nossos prazos...
O hoje é só um revés
dos encobertos conflitos.

Buscamos entre poeiras
vestígios dos nossos atos;
em escombros fez-se o sensato,
e a vida, mar de sofrer.

Retraços



Se encontrarão nas palavras
retraços de nossa história,
porém numa parca memória,
mistérios de nossa alma...

um vazio na infinidade,
evoluções, retrocessos;
nada no corpo inconfesso
ao influxo de existências...

conheceremos a verdade
no pó do que já existiu...
n'argila que, homem, pariu
ou nas finitas consciências?...

no esquecimento há essência
de humanas futilidades...

Senhor de anti-razões



Não soo o lado mais vil
desse ser multipolar
que há muito sente ser mar
n'outrora se sente rio...

um ser que impõe-se ao fastio,
boicotando o verbo amar
porém conjuga o deitar,
e após se enche de vazio...

Sapiens de senso arredio
de inesperadas emoções,
d'espectro frio e sombrio.

um Senhor de anti-razões,
de juízos mui doentios,
mar e rio de contradições.


Sentimentos mortos



Algo que me domina,
me traz a quietude
e me desconcerta,
faz de mim o vazio;
me anula e sombrio
me veste de solidão...

Deixem que dormitem
e se acumulem
as palavras em meu silêncio-dilema...

Preciso do nobre,
de motivos novos, fortes,
de alma aberta,
de provocações...
para que me venha a estação Poeta...

E enquanto, em mim, cessa
toda inspiração
pobre, sou oco universo...
e, sendo pouco, farto de problemas
sou versos tortos fora do papel...

Sem chão, sem céu
e em mundo adverso
sem valia à pena,
incompleto,
verso insepultos sentimentos mortos,
expostos
num imperfeito poema...

Se sinto em ti tetentações...


Se sinto em ti tentações,
fraquezas por me entregar
é o fogo de teu olhar
que causa, em mim , devoção...

Tal um universo em explosão
com o afã de beber o mar,
e o imo se embriagar
com intensa sofreguidão.

Teu ar me traz ebulição
me traz descontrole, enfim
não temo essa perdição...

Ter-te distante a mim
me prende à convicção
que a salvação é meu fim.


Tentações



Afasta-te de mim
porque tentações prosperam
e em meu fraco coração
furacões me desmantelam.

Dos improváveis aos afins,
sentimentos que me regram
por atos e por omissões
nas paixões que se atropelam.

Por todos os meus confins
pesam as loucuras em razões
bem menos que em emoções...

E a bem das devassidões
jamais me caberá o fim
se eu sinto em ti tentações...

Saudades engavetadas



Perdi o sorriso, o brilho dos olhos,
tornei-me indiviso, mas só pra você.
Os prejuízos advindos dos erros e do encerro
foram todos meus.

Nunca acostumei a amar o vazio
nem a sentir frio com sua mesquinhez.
Cansei de seu osso, seus planos insossos,
de sua insipidez...

E pra não criar, nem sofrer às verdades,
mais desilusões
fechei o meu peito e saí sem alardes,
guardei suas saudades
na mesma gaveta onde guardo ilusões...

Proscrição



Despojarás no silêncio
dos versos inanimados
toda emoção encarcerada...

E sem nenhuma comoção
vomitarás sais, palavras
que ficarão estacionadas
em rimas ao desassossego.

Virão das noites caladas
rumores, sublevação
abismos, desolações
à morte não anunciada...

E da estação matinal,
das invisíveis paisagens,
sem cores e sem imagens,
um umbral de recordações.

E ao chão, a estância final,
farás cumprir teu degredo;
ao silêncio o desenredo
pro carbono sepulcral.

Presente



Presente, futuro utópico;
átimo de um nanossegundo,
não cabe nem em sua pronúncia
tampouco cabe em um suspiro...

do tempo, menor unidade,
tangente imperceptível;
se esvai e já jaz passado,
varrendo ou trazendo vidas,
compondo ou excluindo mundos...

Senhor de reses e profundos
que traz as feridas ou a cura;
ou é lucidez ou loucura
fugaz e incorruptível...

e a depender das sementes
semeadas em seu chão
ou é praga ou bendição
ou é berço ou sepultura.

Páginas avulsas


São essas páginas
épocas do querer sem medidas;
do amar sem medos e sem vaidades,
com pressa e sem avareza...

Marcas do relógio carrasco
e que não ouve lamentos...
rogos de sua morosidade,
tentar é tão inutilmente,
frear os ponteiros do tempo...

Recordações do prelúdio,
antigos retratos,
retalhos de ingenuidade
nos mergulhos ao abstrato,
nas distâncias de futuro,
nas crenças aos feitios fantásticos...

Vem reminiscências
das velas jogadas ao mar
em busca de solidões,
e um nome escrito na areia
que o mar, sem dó, apagou...

E ainda há os fragmentos
dos medos e dos segredos
que por entre dedos escaparam,
dos tempos que se arrastaram,
das vezes que imitei as velas
e enchi-me de maresias;
dos hiatos de saudades
de tudo o que era impreciso...

Foi quando descri do amor
e ali desisti do mar
minha nau se pôs a vagar
por me faltar o sorriso...

Órbita ilusória



Pequenez e cinismo,
malícia e sedução,
dons pérfidos de uma alma nutrida de enganos...
berço da ferrugem em práticas desleixadas
nos coitos descartáveis;
bombardeio indolor no ego anti-humano...

Créditos que se expiram sem que se perceba;
afetos mortos, caricatos,
orgulhos putrefatos,
cédulas sem o mínimo valor
que matam sonhos sonhados,
que vivem sempre à fuga
e muito aquém da razão...

Em sua infeliz trajetória,
da ostentação à infâmia
numa falsa lucidez...

Bem adiante, no fim da estação,
colheitas de ilusões;
nas escavações de abismos
o tédio, a solidão...

O voo, a queda e o chão



Entre o voo e o chão
nem sempre há a queda;
a vida acontece quando se perde o medo,
o medo não assume riscos
e arrisca à vida, o não viver...

Há tanto céu sobre o chão
e é gratuito voar...

As quedas são aprendizados
e nem sempre causam quebras;
entre o voo e a queda,
existirá sempre um chão...
entre o chão e a queda,
a quebra de asas pode haver ou não...

Há provas entre a queda e o voo,
há vida entre o voo e o chão...

O amor que não amo



Não me importa a agonia no mergulho ao fogo
que arde em vivas chamas,
nem de expor-me à faca que retalha a alma
e dilacera;
mesmo que haja o sofrimento
e a dor como martírio,
quero beber e embriagar-me desse sentimento.

Quero adentrar o lago fundo
de águas inquietas, turvas e salobras
à insegurança e ao temor
que habita em cada sinuosa curva,
eu quero a chuva
que fraqueja ou cai em incessantes torrentes,
as tempestades, as pedras
e os desertos em areias quentes.

Quero às paixões ferir-me até que o imo sangre,
depois tragar do vinho e do vinagre acre
até que o peito estanque;
quero sofrer à insônia infinitos tons de medo;
eu quero o mel que azeda
e se transforma em ressentimentos;
quero morrer sem a consciência
desse engano ledo;
eu só não quero voar nas asas lassas
de um amor placebo..

Noctívago





Insone, ermo e inconspícuo
eis que vagueia o poeta
nas horas da noite infinda,
por becos frios e sombrios,
no seu imo mergulhado,
com trajes de solidão...

Em seu coração trancado,
esteio de suas fugas,
há cárceres em suas lacunas,
há furnas, mil cadeados ...

Tomado por desenganos
num plano em que inexiste
seus passos são sem destino.

Em sua face o desatino,
São seus olhos tristes rios
e seu pranto um oceano...

Os seus medos são açoites
dos sentimentos insanos
que nunca tiveram cura.

E em sua aresta obscura,
sem lastros,  inacessível
que só, por si só procura...

E nas imolantes buscas
por caminhos escarpados
num grito, numa implosão...
que muitos nunca ouvirão...
E quanto mais se se busca
do mundo se distancia;
em seu céu, expiações...
de escuro, ele silencia
mas deixa réstias em seu chão
camufladas de poesias ...

Múltiplo de si



Na vida, mar de inconstâncias,
de infernos e paraísos,
o poeta incorpora diversas personas
em sua incompletude,
e, por muitas vezes, em suas ondas
de sanidades ou delírios,
esse esquisito indivíduo,
se perde ou se encontra...

Independente,
seu mundo é inconvencional;
e é, ele, pássaro que não se prende,
um altivo vagabundo
e de tino conversível ...

Múltiplo de si,
pode, o poeta, ser a realidade
também pode ser a ilusão;
é contraditório, é imprevisível;
um ser oscilante, louco e atemporal;
está sempre em mutação
e à busca inquietante em ser...

é o seu ofício, a palavra
que dita eflui vida,
e que de viva faz-se vaticínio...
seu canto é sacerdócio:
é bênção ou maldição...

Inominável poema



O tempo é imprestável
quando, assaz, voa sem deixar rastros
ou mesmo quando se arrasta
deixando trilhas de dor...

Angústias e amargor
vêm espezinhando os pecados,
nos passos encruzilhados,
condenações e castigos...

Voltado pro próprio umbigo
crias dum mundo em inversões;
seus ventos vêm em turbilhões
escavando precipícios...

Desfechando esse martírio
com o escuro das perdições;
com os funerais de ilusões
lamaçais de desperdícios...

Inaudível





Na pele fria carrego
poros sem alma,
pedaços, cinzas de histórias
nada tem asas, sinais de vida,
nem brilho, nem luz ou cor,
nem emoções nem calor
tampouco ecos, saudades...

Não sei o que dizer das palavras
que pairam no ar sobre mim,
nem sei o que fazer de ti
com esse tépido querer.

Caminho torto e escuso,
solitário pelo estreito;
à frente o esperado fim
nesse letargio estrépito...

Quaram ao varal maus lençóis
que sós morrem sem verões,
em meus empoeirados porões
as réstias por fim se apagam...
só resta (ou só cabe) em mim
um mar de desilusões.

Impossível



Somos estradas sem confluências
em nossas vidas aceleradas e sem freio.
Cruzamos diversas pontes
sem acessos à oposta estrada;
à frente encruzilhadas
e em cada escolha feita
mais e mais nos distanciamos...

Nos vícios de divergências
Perdeu-se o fio da meada...
A volta é impossível com o labirinto criado...
Certamente, acabaremos num beco,
cansados, fartos e famintos,
insubmissos e fracos
com a morte à nossa espera.

Talvez n'outro lado possamos nos achar
ou então
o fim nos consumir...
Não vale à pena ensaiar
o que se mostra impossível...
Da inconsciência vem o triste:
não existe vida em vida
e o limbo é mais que provável...

Paixão morbífica


Talvez ainda caibam em minhas angústias,
dias __doses de veneno torpe__
que me mata aos poucos...

essa apartação me imola e molesta
e a tua ausência me infelicita,
seca-me a alma
e o meu fôlego parco falha;
é, talvez, o fim que já sinaliza...

é dessa paixão morbífica, incurável
que inflama o peito
e que não vira a página
que me faz cativo, me traz maresias;
é nessa prisão, quase que perpétua,
por que sofro tanto...
meu tempo é de prantos,
de chagas, de dor...

às noites,
nas tantas invernias que me amofinam
peno, como um cão sem dono...
dentro do meu quarto e do ninho vazio
sofro e me despedaço,
paraliso o tempo...

tudo
são lembranças tuas...
meu mundo é penumbra vista de soslaio...
e eu de tocaia preso em meus delírios,
bebo amarga taça,
morro em nostalgias...

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Futuro que passa




Antes era o desejo intenso de viver mundos,
de conhecer profundo o que os ventos traziam...
de criar asas,
de a fundo se envolver e se deixar levar...

e havia a vontade de acordado sonhar,
a sóbria e boa vontade
de despertar fantasias...

Tudo era verdade,
e era desde a tarde até o amanhecer
a amizade fluía
como água pura em caudalosas fontes...

Havia o riso no rosto
e o troco era cordial...
a poesia era viva e construía pontes,
e diante de todo novo
encontros aconteciam...

Hoje parece que o mundo mudou de cor...
lá numa margem é deserto
e doutro lado uma ilha,
há cercas por toda parte,
o inteiro agora é metade;
ainda existe poesia,
mas já não existem pontes...

O tempo é só tempestades
e em meio à toda invernia
as pedras não mais se encontram...

Não caberão as saudades desse futuro que passa...

terça-feira, 18 de abril de 2017

Homem-objeto-direto



Cada vez mais incompleto...
deixa pedaços onde anda,
cada vez que se debanda
em fragmentos irrequietos...

transmutado de abstratos,
foragido de concretos;
um inacabado projeto
de extratos e substratos...

de grãos d'amores inexatos
que dormitam em secreto
sem regras, sem aparatos;

é o homem-objeto-direto
que come em diversos pratos
e que intransige com afetos...

Furna




Dos sentimentos que hibernam
jamais virão confissões
dos desejos suprimidos;
dormitarão em segredo
em sua reservada furna.

E a esse ser reprimido
no seu doentio sadismo
de se negar à entrega,
jamais virá o troco na mesma moeda
porque o seu preço já é pago no exício.

Nas malhas que a vida enreda
as pagas não são fortuitas...
Pecado é não amar...
Como se pode a avareza
nas coisas que são gratuitas?

Destino



São mais que subjetivas
as resultantes
de toda ação calculada...

Infindos são os desperdícios,
tramados no inconsistente,
as moras e os desencontros
as fugas (in)conscientes
e desculpas planejadas.

No ego o desconforto
da lida descontinuada,
no peito velam os desejos
e as emoções encarceradas;
as feridas mal curadas
e a vida já desvalida.

Nesse enlinhado novelo
Carrosséis  d'idas e vindas
abismos e descaminhos
marcando o que triste finda.

E o que dizer deste tino
do amor que deserto ilha
do mundo que se esvazia
num coração estagnado?

Pois todo e qualquer destino
é o mais simples resultado
das trilhas percorridas,
das tentativas de atalhos
e passos estacionados.

Do espírito e de seus mistérios

Não sei explicar os mistérios
que envolvem as coisas do espírito
nem todo imaterial,
mas sei entender de corpos,
e todos os seus conflitos...

Sei buscar à carne o prazer
e transformá-lo em amor;
sei entender de vícios,
sei me doar,
me entregar,
me servir no ato de ser servido
sem medos, sem dor,
sem culpas e sem dolo.

Sei entender de rolos
sei entender de solo,
de voos, de zelo,
de fogo e de cautérios,
de colo e de consolo...

Sei entender de amarras,
também entender de escudos,
contudo entender de améns...
E sei que isso tudo é lícito
deveras, sei que é do espírito,
só não conheço os mistérios.




Dia novo




No limiar de uma nova estância
perspectivas
e novas esperanças;
apesar do dia novo,
ainda carrego em mim
as bagagens do passado
também as vivas lembranças...

Já não ouço mais o baque
do que me trouxeram as dores...

Com o relógio-calendário
vieram os reais valores,
o aprendizado, o anteparo,
também os timbres de amores...

Levarei sempre em meu cerne,
intrincado em meu afã,
esse passado evidente,
pois o hoje é só um presente
embrulhado pro o amanhã...

Do adeus


As despedidas que vêm sem o abraço
tem sempre a tristeza por sua companhia;
das dores, dos gestos inconfessos
vêm mortes, mesmo que haja vida...

são muitas vezes teatro, dissimulações,
no brilho embotado nos olhos,
disfarces em sorrisos pálidos,
mas sempre há na alma a implosão...

travo na garganta, incertezas
dúvidas assombrosas de desilusão,
vêm inseguranças, sensações de perdas
medo de saudades...

tem o gosto de melancolia
malfazeja solidão,
marés de horríveis momentos
pressentimento do fim...

atemporais travessias
de horas transversas, escabrosas...
a vida fica por um triz
e ávida de esquecimento...

Divã, versos & lágrimas




Perco-me na liberdade
das vírgulas que tu me prestas
e em meu querer aflorado
têm dívidas que me consome...

Perdido sigo em tuas dúvidas,
de intrincadas vielas,
confuso e de tino frágil,
de intimidado a arredio...

Solos dividem-me em cacos
na exatidão de saber
o que nos faz desconexos;
tudo que ainda não sei,
quem fui e pra onde vou...

Busco raízes perdidas
em teus desertos quintais...
De saudades calcifico
aos prantos, só, me dissolvo...

Por medos me crucifico,
camuflo-me de azuis manhãs...

Dos teus desvios vêm sais
a azucrinar os meus dias
com as solidões que processo...

Em meus passos, retrocesso
com o vago que me conduz
num mundo vão, sem valia...

Me falta luz e altivez,
pra que me encontre em tuas noites...

À lua e na escuridão
com as más marés em açoite
sem couraças lhe confesso
o amor que por ti professo...

Num poetizar, em meu divã
lacrimo à dor de meus versos.

Delírios






Sempre retornamos ao ponto de partida
para uma nova chance de acerto...
O tempo tem seus mistérios:
todo presente é misto
de futuro e de passado,
em cada período, um elo quebrado.

Num mesmo espaço de tempo
e em outros e outros corpos
somos as mesmas pessoas,
somos os tantos afins
tentando se reencontrar.

Inconsciente
condenamos o que já praticamos
sem enxergarmos
que um ou o outro Eu
já entrou em evolução.

Defeso




Não são peças de brinquedo
nem são coisas sem valor
o que se bolem em meu peito...

Viver no eterno segredo
desse destoado amor
que já nasceu imperfeito...

Vem sempre ao primeiro alvor
as lembranças dos teus braços,
de teu colo, meu regaço...

Nem a sangue me curvo ao medo
de alimentar esse amor
sem pôr-me a ele sujeito...

Sigo aos rastros de Thelema
tendo o amor sob vontade
mas o exercício é um dilema...

Distância tua traz enredos
nas noites insones a transpor
os céus escuros em meu leito...

Em estreitos de muros e grades
sem um mínimo aceno teu:
dor que arde em continuidade...

Mas no solo do meu íntimo
quaisquer movimentos teus
suscitam os nós de saudades...

Das ojerizas



Embora amargue à solidão que te espanca,
resisto em calar
aos vitupérios de teus extremos,
trópicos venenos que em poesias sangras...

Palavras-sais de águas rasas,
frutos de tuas tempestades,
que escorrem em ribeirinhas,
que morrem em tuas margens áridas,
e que a mim não alcançam...
só vazam pra te afogar...

Teus versos egoísticos têm iras,
teu ar, condensantes liras
que só a ti  que maltrata;
e em tuas tantas capas,
um ser que ergue-se infeliz.

Em tua alma-calabouço,
de portões, celas e trancas;
teus cursos a luz atravanca
deixando o viver no escuro
e só por um triz...

Uma história que ao outro enfada...
lamúrias que a sorte estanca,
augúrios que à morte fada...
e em teus tão lerdos caprichos,
pretextos de escapatórias
nas trajetórias que estragam
a fé de sobreviver...

Amiúde os tais embaraços
que desconstroem o querer,
vão pro ataúde os abraços
já rendidos ao cansaço
e renegados ao prazer...

Das dissipações


Embora renove-se o tempo
nada de novo acontece
quando se despe ao desprezo
e deita-se sobre a geleira
com a alma em névoa
n'absoluto silêncio...

Vidas se indispõem
e se avinagram,
moinhos se engrenam,
dias passam mudos
e sem movimentos...

entre tantos contratempos
folhas secam, caem
e solo envenena,
tormentas se instalam
e os ventos mudam de rumo...

e as águas em seu curso
e em redemoinhos
constantes movem o relógio...

e em meio aos imbróglios
o tempo segue seu rito,
cumpre o seu papel...

distâncias agiganta,
nutre a indiferença
a ira desbanca...

nenhum mal ou bem
nascem vitalícios...

Tudo qu'inda é novo
vira desperdício
e o que agora é velho
jaz no esquecimento...

D'Eus


Deus,
um ser que, em mim, sintomas definir não consigo,
por ser assim indefinível nem mesmo ouso entender;
se dele nada entendo também não tento explicar...

Fecho os olhos e não ouço o mundo,
tento a mim mesmo ouvir...
pra não ter que tolher meus sonhos,
pra não ter que podar minhas asas...

Aceito o que vem da raiz,
sigo as paixões e seus mistérios,
vivo o amor sem martírios
à luz das inquietações...

Pecados e profanações
vão às margens dos meus delírios;
e as rejeições de impérios
me elegem, de mim, juiz ...

Confluências




Meu ser põe-se em desmazelo
com mundos que tergiversam;
que versam evaporações
com seus feitios vilanescos...

O meu mundo não conspira
com evasões pros desencontros,
não transige à sedução
dos sorrisos vãos de enganos.

Meu mundo só segue mundos
que esbocem e permitam encontros,
e que realizem sonhos,
e que banam desenganos.

Clareiras



São tuas doces palavras,
clareiras de faces nuas,
d'iluminadas searas
que enternecem as veredas
robustecem o caminhar...
com o findar das penumbras
que se embrenham em meu ser.

É o fim
das sinuosas madrugadas,
da paz que outrora roubada
negou-me o amanhecer...

E assim
traz-me o brisar e paragens,
o alcançar outras viagens
sem o medo de me perder.